Circuito de Gêneros
A atividade que denominamos Circuito de Gêneros surgiu da necessidade de criar um espaço propício para o vicejamento da versatilidade linguístico-discursiva dos estudantes ao trabalhar, em um curto espaço de tempo, com vários gêneros textuais que circulam em ambientes discursivos diversos, com um grupo de estudantes para quem o contato com esses gêneros serviria como uma forma de, não só reconhecer a variedade dos gêneros com os quais interagimos como também experimentar sua produção, mobilizando os conhecimentos necessários para tanto. Foi com tal propósito que desenvolvemos essa atividade didático-pedagógica, cujo núcleo é a possibilidade de trabalharmos a produção de gêneros variados a partir de um gerador (conto, carta, filme, entre outros), evitando, assim, que a atividade se restrinja à descrição desses gêneros. Partimos, então, de um conto para propor a produção de novos textos/gêneros, oriundos de linguagem plausíveis, a partir do desvelamento do enredo da narrativa.
O trabalho com o Circuito de Gêneros inicia pela leitura do texto gerador, em nosso caso, o conto de Calvino (1990) Marcovaldo e as estações na cidade, cujas características possibilitam ao estudante construções operárias reversíveis, uma vez que seu enredo, revestido de uma aparente simplicidade, guarda uma rica complexidade a ser explorada, tanto no que diz respeito à sua construção como um gênero do ambiente discursivo literário quanto às possibilidades interpretativas que gera.
O processo heurístico que subsidia esse trabalho oportuniza um monitoramento diferenciado, tanto por parte do professor, quanto por parte dos estudantes, uma vez que envolve atividades metacognitivas de ambos, criando espaços para atividades de ensinagem auto-reguladas que promovem o desenvolvimento da autonomia interativa dos estudantes.
Assim, fica evidente que o reconhecimento da estrutura do gênero não pode, de fato, ser a finalidade última dessa atividade, que precisa levar o estudante a um trabalho interpretativo em que ele encontre a possibilidade de expressar o manancial de cenários e representações criadas a partir da compreensão do funcionamento do texto/gênero textual na atividade de linguagem que está em jogo. As imagens construídas mobilizam os saberes por ele interiorizados, criando a possibilidade de conexões entre esse imaginário descortinado pelo texto literário e suas vivências dentro do processo de interação sociodiscursiva.
A imersão no texto também permite a identificação do papel sociointerativo das personagens no conto. Parte-se da imagem que o estudante tem dessas personagens para o reconhecimento dos elementos lingüístico-textual-discursivos que subsidiam tal construção, movimento que oferece ao estudante a possibilidade de visualizar, também o lugar ocupado por essas personagens no enredo e, portanto, construir inferências sobre os espaços da esfera social que o texto reconstrói.
O tratamento com vespas, cujo enredo envolve, em síntese, uma personagem chamada Marcovaldo, que descobre, por meio de uma notícia de jornal lida por um amigo reumático, um possível tratamento para o reumatismo – doença que assola a população de sua pacata cidade – foi escolhido por ser altamente provocativo, gerando cenários variados e podendo desencadear uma série de atividades e ações de linguagem. O tratamento desenvolvido por Marcovaldo é um procedimento não muito convencional que utiliza picadas de abelhas diretamente no local da dor. A invenção da personagem cria fama e Marcovaldo, envolvendo mulher e filhos no negócio, transforma sua casa em um consultório, passando a atender ali toda a população. Eis que de repente acontece um acidente na coleta das abelhas e um enxame raivoso adentra sua casa, atacando seus pacientes que, juntamente com “o curandeiro” , terminam no hospital.
Como mencionamos acima, após a leitura do conto, o professor orienta a classe no intuito de desencadear um processo criativo que remeta a atividades de linguagem e a gêneros textuais passíveis de serem atualizados pelos envolvidos nesse enredo. Algumas conjecturas são feitas, tais como a indignação dos pacientes de Marcovaldo que, com o desfecho da história, resolvem dar queixa na polícia, registrando, para isso, um Boletim de Ocorrência. O delegado resolve, então, abrir um Inquérito e despacha uma Intimação para Marcovaldo, que deverá comparecer na delegacia para prestar Depoimento. Assutado, Marcovaldo busca a ajuda de um advogado que lhe solicita uma Procuração. Na seqüência podem surgir outros gêneros textuais do ambiente discursivo jurídico, os quais a maioria dos estudantes ignora, o que indica a possibilidade de um transito por esse ambiente discursivo muito pouco explorado na escola.
À medida que o professor estimula e legitima a mobilização do universo imaginário dos leitores, a discussão do texto pode, também, encaminhar-se para outras direções, como aquela em que Marcovaldo, apesar de reconhecer os problemas da primeira experiência, não contém seu entusiasmo e decide ir adiante com a produção de seu “emplasto milagroso”. Vai até a agência publicitária da cidade e encomenda uma campanha de lançamento de seu produto, o Vespol, Abelhol, ou qualquer que seja o nome do remédio, escolhido pela turma. Surge a necessidade de criar um Rótulo, uma Bula, um Folder, um Anúncio Publicitário para publicar no jornal da cidade e até um Outdoor. Na cidade não se fala de outra coisa, portanto, o editor do periódico local, depois de ter divulgado a Notícia, na primeira capa do diário, encomenda ao seu repórter mais experiente uma reportagem completa sobre o evento. O repórter sai em busca de pesquisas acerca de remédios dessa natureza; Entrevista especialistas, médicos, cientistas; pesquisa na internet Artigos de Divulgação Científica; lê periódicos que publicam Artigos Científicos para com isso embasar sua matéria. A edição do jornal causou furor no biólogo da cidade que, indignado, escreve uma Carta de Leitor à redação do jornal, protestando contra o uso de animais em práticas ilegais de curandeirismo. O intelectual envia um Artigo de Opinião, o jornal posiciona-se sobre o caso em seu Editorial explicitando a matéria. Os comentários são gerais em todo canto da cidade. Alguns moradores fazem Telefonemas, outros escrevem Cartas, outros ainda enviam E-mails. Um internauta resolve criar um Fórum de Debates sobre o assunto, e o Circuito está desencadeado.
Como é possível observar, essa proposta acaba propiciando um passeio por ambientes discursivos muito diversos, fazendo com que os participantes realizem atividades de linguagem variadas, percebendo as adequações necessárias à sua atuação em cada uma dessas situações sociodiscursivas, modulações tais que constituem etapas da dinâmica de auto-regulagem, potente recurso pedagógico no que tange à conquista de destrezas sociointerativas dos sujeitos envolvidos.
É possível acrescentar, ainda, que essas estratégias didático-pedagógicas, de caráter exploratório, são altamente significativas, visto que permitem acionar o conhecimento prévio do estudante, criando um cenário legítimo de estímulo ao processo inferencial, capaz de fazê-lo atualizar os diferentes gêneros que deveriam ser mobilizados dentro de atividades de linguagem plausíveis, reconhecendo os ambientes discursivos em que poderiam circular essas personagens. Oportuniza-se, assim, a atualização da habilidade de construção-desconstrução-reconstrução envolvendo diferentes níveis de complexidade operatória do estudante, e potencializando seu transito entre múltiplas instâncias de saber, condição indispensável à evolução do processo sociointerativo. Além dos gêneros textuais anteriormente relacionados, são muitos os que podem vir a ser produzidos em um Circuito de Gêneros, o que dependerá, diretamente, do texto selecionado como gerador da atividade. Enquanto o conto de Calvino propicia, por exemplo, que os estudantes cheguem à construção, por exemplo, de uma Embalagem, do Rótulo do medicamento, da Bula que o
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
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